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Viagem com acessibilidade: as experiências e histórias compartilhadas por Laura Martins, do blog Cadeira Voadora

1 de novembro de 2020
Turismo acessível

Acessibilidade é um tema importante e que deveria nortear a execução de políticas públicas dentro dos espaços públicos em todas as cidades. No entanto, o quadro geral nem sempre é este e quando uma pessoa decide viajar para um determinado destino turístico, pode constatar na prática que essa não é uma preocupação dos gestores locais. Por isso, convidamos a experiente viajante Laura Martins, do blog Cadeira Voadora, para compartilhar suas experiências, histórias e sua visão acerca da viagem com acessibilidade.

Autora do blog Cadeira Voadora, criado em 2011, Laura Martins é servidora pública aposentada, formada em Letras pela UFMG e cadeirante. Conforme ela explicará melhor adiante em nossa entrevista, o blog foi criado com o objetivo de compartilhar histórias e ajudar outras pessoas com deficiência e mobilidade reduzida a aproveitar o melhor de cada viagem.


Viagem com acessibilidade: as experiências mais marcantes

Perguntamos à Laura Martins quais as duas viagens que ela considera suas experiências mais marcantes. Conforme ela explicou durante a nossa entrevista, viagem para ela tem um significado bastante profundo, de encontro consigo mesmo e expansão da visão de mundo. Confira:

Laura Martins: Eu acho bem difícil responder qual a viagem mais marcante, mas eu talvez possa responder que foi a viagem a Newcastle Upon Tyne, que foi a cidade que eu escolhi para fazer intercâmbio. E ela foi uma das mais marcantes porque é uma cidade histórica, em que se investiu muito na acessibilidade. Ela tem, por exemplo, um castelo medieval, que tem um elevador panorâmico, que tem banheiro com adaptação mesmo sendo algo medieval.

É comum que as pessoas digam que não se pode mexer no patrimônio histórico e Newcastle é um exemplo de intervenção no patrimônio histórico e de intervenção bem feita.

Na parte central da cidade, mais turística, onde há muitos monumentos históricos, as calçadas são impecáveis. Isso faz com que uma pessoa em cadeira de rodas ou scooter possa circular com muito conforto, sem trepidação, sem conseguir transpor de um lado para o outro da calçada. Mesmo na parte mais íngreme da cidade, é possível circular sem degraus.

Também foi uma temporada marcante para mim porque as pessoas são muito afáveis, gentis, sem serem invasivas. Elas podem notar que você está precisando de ajudar ou oferecer ajuda sem tocar em você, sem impor a ajuda.

A outra viagem marcante talvez seja Londres, na mesma época que fui a Newcastle. Fiquei poucos dias na cidade, mas foi uma viagem marcante pela mesma razão: as pessoas são gentis, receptivas, porque a cidade também recebeu muita intervenção para a acessibilidade. É uma cidade muito bonita, que investiu muito na acessibilidade na área mais central e turística.


Lugares para não voltar…

Oficina de Inverno: Tem algum lugar que não iria novamente?

Laura Martins: Eu não iria novamente a algumas praias que foram muito complicadas por causa da falta de acessibilidade. Eu só iria novamente se já tiverem sido promovidas mudanças. Fui a algumas praias a partir de Natal, no Rio Grande do Norte, que realmente não tinha nenhuma condição de acessibilidade.

Acredito que eu não retorne a Arraial d’Ajuda, pela mesma razão. Não temos quase nada de intervenção com relação à acessibilidade e eu acho isso uma falta de respeito, em uma época em que existe tanto esforço para tornar as cidades mais acessíveis.

Não voltaria a Porto Seguro enquanto não tiverem mais intervenções. Gostei muito de um resort que fiquei em Arraial d’Ajuda, se eu voltar vai ser pra ficar neste resort, por ter bastante itens de acessibilidade.

Fui a Porto Seguro há 20 anos e voltei há cerca de dois anos e não vi mudanças acontecerem. Eu vi que tem mais hotéis com itens de acessibilidade, mas não vi alteração na cidade.


Desafios em destinos sem acessibilidade

Oficina de Inverno: Já deixou de visitar algum país por conta da baixa acessibilidade? Como pesquisar antes se o local é acessível?

Laura Martins: Talvez não tenha deixado de visitar um país por causa de acessibilidade, mas já deixei de visitar algum destino por causa disso. Por exemplo, já deixei de visitar, com grande dor no coração, o Monte Saint Michel, na França. É uma abadia que fica no alto de uma colina, que sem acessibilidade ficaria muito complicado. Eu até já visitei locais sem acessibilidade, dependendo dos desafios pelos quais eu iria passar e da companhia de viagem [o que exige preparo físico para auxiliar]. No caso, principalmente, de desafios relacionados à própria natureza*.

Além do Monte Sant Michel, há muitos outros lugares que ainda não conheço porque ainda não há acessibilidade. É o caso de parques nacionais brasileiros e lugares fora do Brasil, mas ainda vou aguardar um pouco mais por passeios de balão no Sul da França. Eu gostaria de fazer também um passeio pelo roteiro dos castelos na França.

* Laura conta que atualmente o Monte já tem uma cadeira especial para facilitar a locomoção no espaço, mas que ainda demanda uma companhia de viagem com bom preparo físico.


Sobre compartilhar: o blog Cadeira Voadora

Estação em Vila das Aves, Portugal

Laura Martins em estação na Vila das Aves, em Portugal – Foto: Reprodução/Blog Cadeira Voadora

Oficina de Inverno: Você tem um blog chamado Cadeira Voadora, onde fala a respeito da acessibilidade no turismo e de inclusão. Gostaria que você contasse um pouco do porquê começou a trabalhar esse tema, porque você observou que era preciso falar sobre o assunto…

Laura Martins: Eu criei o blog Cadeira Voadora em 2011 para compartilhar experiências de viagem. Eu sempre gostei de viajar e eu ficava pensando assim: os lugares não têm acessibilidade e eu vou montando os roteiros por conta própria, porque eu já tinha feito algumas viagens meio frustrantes, porque na época não tinha nada voltado para a pessoa com deficiência. Às vezes comprava pacotes de viagem e não havia viagem personalizada, pelo menos não se falava disso.

Então, pouco a pouco, eu fui aprendendo a montar as minhas próprias viagens e eu já estava acumulando um material, sem saber o que faria. Com aquela sensação de que esse conhecimento não seria útil para as pessoas. Então tive a ideia de fazer o blog para compartilhar essas experiências, para que essas experiências pudessem auxiliar outras pessoas. Dessa forma, elas não precisariam passar por aquilo que eu passei, pelas dificuldades ou pelo trabalho que eu tive para pesquisar hotel, pontos turísticos com acessibilidade. Elas já iriam encontrar tudo pronto, então a motivação foi essa.


Acessibilidade nos destinos de viagem

Oficina de Inverno: Você considera que a acessibilidade é uma preocupação ou prioridade nos locais que você visita? Como é possível trabalhar melhor essa questão?

Laura Martins: Eu visito locais de todos os tipos. Em alguns locais, nós observamos muita preocupação e ocupação com a acessibilidade. Não somente preocupação, mas ação, para transformar o local, para que ele seja mais acessível. Na Europa existe um prêmio anual, se não me engano, que avalia quais as cidades que mais investiram em acessibilidade naquele período. É um prêmio muito interessante, porque motiva as cidades a se empenharem cada vez mais nessa questão. Seria interessante que no Brasil tivesse um prêmio desse, não é?

Em Barcelona há um grande empenho para que a cidade fique, pouco a pouco, mais acessível. Algumas cidades espanholas nós notamos esse empenho, que também vi em Porto e Lisboa, em Portugal.

Esse tipo de empenho costuma estar ligado a comunidades, grupos específicos que estão no meio acadêmico ou estão trabalhando no governo. Gente que tem deficiência ou não, arquitetos, mas que resolveram se empenhar para que a cidade fosse mais acessível.


Dicas para planejar a viagem

Viagem com acessibilidade

Laura Martins em Toledo, cidade histórica na Espanha – Foto: Reprodução/Blog Cadeira Voadora

Oficina de Inverno: Quais dicas práticas você dá para o cadeirante que vai viajar e não sabe bem como se preparar ou o que esperar da viagem?

Laura Martins: Eu detalhei tudo no livro que acabo de publicar. Então o que recomendo é que a pessoa baixe esse livro. Até porque ele é gratuito. Basta a pessoa clicar no link e o livro detalha mesmo desde o início da pesquisa até como fazer para viabilizar financeiramente a viagem e até mesmo o que fazer diante de algum problema, de alguma promessa que não foi cumprida, como fazer pra resolver isso até na Justiça.

Oficina de Inverno: Como pesquisa sobre as cidades que planeja visitar?

Laura Martins: Existem várias formas de pesquisar antes.

  • Blog Cadeira Voadora

A primeira forma que eu indico é o blog Cadeira Voadora. Dá uma olhada se o seu destino já está no blog.

  • Blogs de pessoas com a mesma deficiência

A segunda forma que eu indico é procurar em blogs de pessoas com a mesma deficiência, porque muda. Se eu sou uma pessoa que usa cadeira de rodas, a acessibilidade é diferente para uma pessoa que é cega, por exemplo, ou que usa andador, ou que é idosa. Isso vai depender da condição de cada um. O ideal é procurar em blogs o compartilhamento de experiências.

  • Sites institucionais

Também é possível procurar, em cada destino, sites e blogs de pessoas ou instituições ligadas ao governo que falam a respeito deste destino. Hoje em dia, muitos desses sites já tem uma parte dedicada a informar sobre a acessibilidade.

  • Aplicativos

Também podemos procurar aplicativos que informam sobre a acessibilidade.


Acessibilidade hoje: é uma prioridade?

Laura Martins: Acessibilidade não é prioridade em muitas cidades. Lamentavelmente não vemos o poder público se ocupar de fazer uma cidade melhor e nem a comunidade. Porque quando a comunidade cobra, o Estado atende a pressão social. Precisa haver pressão social. Nós temos que reivindicar, as pessoas muitas vezes pensam que acessibilidade é um favor. Não é um favor. A acessibilidade é algo bom pra todo mundo, não só para a pessoa com deficiência. É algo bom também para idosos, pessoas que estão doentes, pessoas que sofreram acidentes, para gestantes, para pessoas que estão fazendo compras de supermercado e que precisam levar as compras pra casa, para os pais que estão com carrinho de bebê.

Daqui a dez anos teremos mais idosos e como vamos fazer sem acessibilidade? Pessoas com deficiência também teremos em número maior, pessoas com mobilidade reduzida… Precisamos atender a todas as pessoas oferecendo segurança e condições de fazer as coisas com autonomia, porque acessibilidade é isso. A pessoa precisa ser capaz de fazer as coisas sozinha, ela não pode ficar pedindo ajuda o tempo todo.

Uma forma então é a pressão social. A outra forma é conhecendo as leis para poder cobrar. Primeiro conversando com as pessoas, educando, dizendo que existe uma lei a respeito desse assunto. Em segundo lugar, recorrendo até ao Ministério Público, se for necessário.

Estamos próximos das eleições e uma outra forma é votando em candidatos cuja pauta contemple a causa da pessoa com deficiência.


A realidade dos serviços turísticos, ontem e hoje

Como pesquisar hóteis com acessibilidade

Laura Martins em hotel na cidade do Porto, em Portugal – Foto: Reprodução/Blog Cadeira Voadora

A Laura nos contou o que viu e viveu desde que começou a rodar o Brasil e o mundo:

1. Aeroportos e aeronaves:

Com relação a aeroportos e a transporte aéreo, já mudou muito. Antigamente, há uns 15 anos no máximo não se tinha acessibilidade nenhuma, era zero! Tudo começou a mudar no máximo há uns 10 anos pra cá, que começaram a aparecer algumas alterações nos aeroportos e nas aeronaves para que a gente tenha acesso. Nós precisamos de muita coisa nos aeroportos ainda e a maioria dos aeroportos não tem isso que nós precisamos:

  • Balcão rebaixado para fazer um check-in;
  • Banheiros adaptados, tanto no embarque quanto no desembarque;
  • Precisamos desembarcar e ter um transporte com acessibilidade para chegar no destino, para ir de um local ao outro;
  • Pontes ou fingers para ir direto da sala de embarque até a aeronave de uma forma segura. Quando não tem finger, é preciso ter outra forma segura. Pode ser o ambulift, um carro elevador, que se eleva até atingir a porta da aeronave pra pessoa entrar. Também já estive em aeroportos que tinham um elevador mesmo, e não o automóvel;

2. Banheiros

Outro problema em transporte aéreo é o uso do toilete. A maioria das aeronaves não tem nenhuma possibilidade de a pessoa ir ao banheiro, porque não cabe nem mesmo uma pessoa sem deficiência, quanto mais uma pessoa com deficiência. A maioria dos banheiros não cabe uma gestante, uma pessoa obesa, não cabe uma pessoa com dificuldade de locomoção. As aeronaves grandes, de longo curso, costumam ter banheiros um pouco maiores, mas não é regra. Eu já viajei em aeronaves onde dois banheiros se transformam em um, mas isso é uma exceção.

3. Viagem de ônibus

Com relação ao transporte rodoviário, é pior ainda. Não sei se a pressão é menor, mas no Brasil temos ainda mais dificuldade com relação à acessibilidade do transporte rodoviário. Agora que os ônibus estão começando a atender a lei porque no Brasil ainda há o problema de adiar o cumprimento da lei. Então ainda não temos transporte rodoviário com adaptações, muito menos com acessibilidade. Fora do país, enfrentamos problemas similares, então não tem como generalizar. Cada local é de um jeito, alguns mais avançados, alguns menos avançados, mas ainda com muitas dificuldades no que diz respeito a transporte.

4. Hospedagem

Com relação à hospedagem é muito desafiador por falta de informação dos estabelecimentos. O ideal é que houvesse um órgão que fiscalizasse, avaliasse e tivesse um selo. A partir daí, teríamos uma ideia se o estabelecimento tem aqueles itens que a gente precisa. Como falei, existem aplicativos e alguns são muito detalhados. Informam até mesmo a medida das portas, detalhes muitos preciosos para quem tem deficiência, chuveiro, cadeira de banho, se tem rampa, qual a inclinação da rampa.

Antigamente, a gente entrava nos sites dos hotéis e não tinha nenhuma informação. Entrava nos sites de busca e também não tinha. Agora alguns sites de busca já tem informação, mas não são confiáveis. Então a gente precisa pesquisar sim nos sites de busca, mas confirmar com o hotel se aquela informação é consistente. Não basta estar escrito é acessível ou não é acessível.


Conheça outras histórias da Laura Martins

Para conhecer melhor a Laura e as experiências que ela tem a compartilhar, assista o papo dela com a Júlia Evangelista, cofundadora da Oficina de Inverno. É só clicar no vídeo abaixo pra dar o play!


Viagem com acessibilidade é um tema que rende longas conversas e que ainda precisa avançar bastante. Entretanto, por meio das experiências compartilhadas por Laura é possível tornar a experiência de viagem menos desafiadora. Por isso, para concluir esta conversa, recomendamos que você visite o blog Cadeira Voadora e fique por dentro de todas as dicas que a Laura compartilha por lá. Acesse agora mesmo!

* Foto da capa: Laura Martins no Parque Güell em Barcelona na Espanha – Reprodução/Blog Cadeira Voadora

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